Hoje trago-vos uma entrevista com Rui Catalão, conhecido como antigo jornalista do Público, na área da cultura, cargo que abandonou no início do século para se dedicar ao teatro por inteiro.
Recentemente Rui realizou trabalhos na área do teatro com Ana Guiomar, Cláudia Gaiolas e Tiago Vieira, A peça de teatro “Judite” estreou a 10 de março deste mesmo ano e, em Maio, realizou um workshop com jovens do Vale da Amoreira, ao qual ajustou um jogo de perguntas difíceis onde o público também pode intervir em palco. Neste jogo, o “sim” e o “não” não podem ser usados como resposta e para se responder a pessoa tem de contar uma história ou, então, retirar-se do jogo, caso não queira responder. “E Agora Nós” foi o nome do “jogo” que Rui apresentou no teatro do Vale da Amoreira, Poceirão e no Teatro Maria Matos.
De que modo tem vindo o teatro a instalar-se em Portugal como uma cultura?
A pergunta é muito extensa e eu só posso responder com base na minha experiência. Quando era estudante, achava o teatro pouco interessante, até conhecer um grupo de artistas vindo da dança, que renovou o trabalho de cena: a Vera Mantero, o João Fiadeiro, o Francisco Camacho e um imenso grupo de artistas vindos das mais diversas áreas que com eles trabalhavam. Foi nos anos 90. Foi também quando descobri o trabalho do Jorge Silva Melo e foi uma revolução: ele trabalhava em textos inéditos, descobriu uma nova geração de atores e, ao mesmo tempo, contava com a colaboração do coreógrafo João Fiadeiro, o que deu uma vitalidade muito grande à mise-en-scène, à exploração do trabalho de corpo e à movimentação dos atores em palco.
Nos últimos 20 anos, surgiu um grupo de encenadores e dramaturgos e atores de grande qualidade, com um profundo conhecimento de várias técnicas e formas de fazer teatro, e também com uma perspetiva da produção internacional, não só por terem trabalhado e estudado fora de Portugal, mas também por terem acesso a produções internacionais que chegavam a Portugal, através de festivais internacionais que passaram a organizar-se em Portugal, mas também pela programação muito cosmopolita que se generalizou na Gulbenkian, CCB, Culturgest, Teatro Maria Matos, etc.
A Escola de Teatro e Cinema do conservatório passou a dar uma formação de maior qualidade e os profissionais já surgem mais preparados, desde o início da sua carreira, não só pela escola em si, mas também pelos inúmeros workshops, ações de formação e uma dinâmica de colaborações entre artistas muito grande, que não existia quando o teatro estava concentrado na produção de companhias.
Hoje em dia restam poucas companhias e a maioria dos atores e encenadores e dramaturgos desenvolvem a sua carreira sem nunca chegarem a pertencer a nenhuma companhia, a nenhum Teatro em particular. Isso afeta a sua estabilidade financeira, mas por outro lado oferece-lhes múltiplas oportunidades de trabalho, de variarem a sua criatividade, de se adaptarem a outros modelos de trabalho, o que gerou uma geração de artistas mais flexível e experiente.
De entre as artes da representação (teatro, cinema) qual a vertente mais escolhida pelas pessoas?
Não sei. Acredito que os jovens tenham a ambição de fazer cinema, mas os atores têm de passar pelo teatro antes de chegarem ao cinema. O teatro é a verdadeira “oficina” em que os atores desenvolvem as suas capacidades. O cinema pertence aos técnicos de luz, de som, de imagem, a quem faz a montagem, etc. Os atores são obviamente “o rosto” do cinema, mas o seu papel no cinema é acessório. É no teatro que os atores são o centro de tudo. É no teatro que têm absoluto controlo sobre o seu trabalho.
Achas que o cinema é de algum modo mais exagerado em relação ao teatro?
O cinema é uma invenção industrial, resulta da “era da reprodução técnica”, ou seja, quando vemos um filme, estamos a ver uma ilusão, aquilo está a ser projetado, já não está ali. Vem de outro tempo, de outro lugar. O teatro não: o teatro está mesmo a acontecer à nossa frente. Podem usar-se recursos técnicos para gerar determinadas ilusões, mas é um facto que há um grupo de pessoas que estão ali e partilham com os espetadores o mesmo tempo e o mesmo lugar.
Há realizadores que respeitam muito o real que está à sua frente e o cinema é apenas o instrumento de fixar isso; e há depois encenadores de teatro que geram tantas ilusões, que usam tantos recursos técnicos, tantos efeitos e ilusões, a ponto de a experiência teatral nada ter a ver com o que está de facto a acontecer.
Imagina que vais ao cinema e que gostas muito de um filme: a sensação que vais ter é o equivalente a um sonho: estás numa sala escura, com aquele ecrã gigante e um feixe de luz a projetar as imagens: a imagem está à tua frente, mas o feixe de luz que produz essa imagem vem de trás! Agora imagina que vais ao teatro e detestas a peça que viste: podes ir falar com os atores, até podes provocá-los enquanto eles estão em palco. Por cortesia, em princípio não o farás, mas estás sentado na sala, podes destruir o espetáculo, podes intervir...
Visto que o cinema é, muitas das vezes, um modo de gerar riqueza, achas que isso pode pôr em causa os filmes pelo facto de, às vezes, só se tratar de dinheiro??
O objetivo de fazer algo nesta vida é sempre, mas sempre, gerar riqueza. A questão é: que tipo de riqueza vamos gerar? Há cerca de dois meses fui assistir, no Coliseu de Lisboa, a uma peça sobre o Eusébio. Montaram uma grande produção, julgando que iam fazer rios de dinheiro. Parecia fácil: o Benfica tinha acabado de ganhar o campeonato e havia uma atmosfera de entusiasmo, por outro lado o Eusébio não tinha morrido assim há tanto tempo, era uma forma de dar a conhecê-lo às novas gerações e de celebrar a sua vida.
Ora aquilo que eu vi foi a desgraça total: do ponto de vista teatral, era um trabalho miserável; e qualquer miúdo que leia dois ou três artigos na Internet ficará a saber mais sobre a vida do Eusébio; também não alterou em nada a sua dimensão mítica. Mas o pior é que nem pelo dinheiro lá foram: o espetáculo foi um fracasso de bilheteira.
Agora comparemos com o cinema: recentemente foram produzidos dois filmes portugueses que são “remakes” de comédias dos anos 40. Eu sei que esses filmes têm causado grande interesse junto do público. O primeiro foi mesmo um grande sucesso de bilheteira e não me custa a acreditar que os próximos serão também um grande sucesso. Ora o sucesso desses “remakes” vem de onde? Vem dos filmes originais, que são a preto e branco, e que são ainda muito populares. Onde é que está a ironia disto tudo? É que essas comédias dos anos 40, quando foram feitas, foram um total fracasso de bilheteiras. Mas, ao longo do tempo, com as transmissões televisivas, foram ganhando um estatuto quase mítico junto dos espectadores...
Achas que o teatro em Portugal tem vindo a ganhar terreno ou a ficção e as novelas tiram-lhe esse terreno??
O teatro e a televisão são dois mundos paralelos. Algumas pessoas, nomeadamente os atores, passam de um lado para o outro e trabalham ora a fazer televisão, ora a fazer teatro. Mas são dois mundos com lógicas diferentes. E o seu público também. O público de televisão é um público passivo: come aquilo que lhe dão a comer e julga ter o poder de escolha só porque tem muitos canais por onde escolher.
O público do teatro é feito de pessoas que tomam uma decisão: vão sair de casa e, de entre os espetáculos que podem ver, escolhem um só. Isto representa um investimento pessoal que é totalmente diferente. O espetador de teatro não é um mero consumidor: ele já fez um investimento em sair de casa, em escolher o que vai ver. A sua cabeça pensa de maneira diferente.
A força do teatro não está no público. Se dependesse do público, o teatro estaria morto. A força do teatro está no facto de acontecer: existe, constrói realidade. E mesmo com pouca gente a acompanhar, ele resiste, a sua força não depende das multidões, mas de quem o produz.
Rui, dá-nos a tua opinião acerca destas versões mais modernas de filme antigos portugueses, como a Canção de Lisboa, o Pátio das Cantigas ou O Leão da Estrela??
Eu não vi ainda nenhuma dessas novas versões, por isso abstenho-me de dar uma opinião. Mas entre as comédias dos anos 40 que foram escolhidas para se fazerem remakes, é engraçado que se esqueceram daquela que é a mais divertida, inteligente e irreverente de todas: “O Pai Tirano”. Aquilo que eu tenho para dizer é: vão antes ver o “Pai Tirano”.
Voltando mais para a área da música agora, qual achas que é o estilo de música que é mais ouvido atualmente?
Não sei. Nunca tive interesse em nenhum estilo de música em particular. Quando era jornalista musical, nos anos 90, e escrevia para o Público, houve uma grande explosão da música de dança. Então, eu acompanhei esse fenómeno de muito perto, não por gostar de música de dança, mas por achar que enquanto jornalista tinha de acompanhar um movimento que arrastava milhares e milhares de jovens pelo país, em festas que aconteciam em sítios quase escondidos. Julgo que atualmente há uma grande dispersão, não vejo um estilo ou tendência que se destaque. Hoje o acesso à música está muito facilitado. Eu aproveitei os últimos 15 anos, em que a produção contemporânea tornou-se para mim desinteressante, para descobrir a história da música. Tenho-me dedicado aos anos 50, 60, 70 e tenho também tentado conhecer melhor o que se fazia em África, no Brasil, no Oriente.
Achas que os géneros musicais têm vindo a modificar a maneira de pensar ou de interação com a sociedade?
Sem dúvida! Quando eu era miúdo, um jovem escolhia um género musical para se distinguir dos outros, mas também para dizer aos pais: isto não tem nada a ver contigo. Era uma forma de construir um muro lá em casa e dizer “daqui não passas”. Foi assim que surgiram géneros musicais muito violentos: o punk, o heavy metal, a música industrial, o hip-hop, o tecno e até mesmo a música minimal-repetitiva. Só que os jovens que cresceram a ouvir esses estilos musicais, entretanto, também envelheceram e têm filhos e estes já não conseguem escandalizá-los da mesma maneira. Haverá exceções certamente, mas hoje os pais são mais complacentes, não se deixam agredir tão facilmente. A música deixou de ser um fator naquilo a que os ingleses chamam o “generativo gap”, o fosso entre gerações. Hoje os jovens têm outras ferramentas para deixarem a cabeça dos pais em água...
Por Alexandre Berto







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